Victor Hugo Pontes
A esta hora, na infância neva 1
2025
Nesta criação com a Companhia Maior, Victor Hugo Pontes segue uma via eminenem
Em cena, corpos de diferentes idades sobrepõem-se para evidenciar o contraste, por um lado, mas também para elogiar a beleza do físico amadurecido: um corpo na dança que perdeu força e velocidade, mas que comporta memória existenci
[1 e 2 ] “A esta hora, na infância neva”, poema de Manuel António Pina em Cuidados Intensivos, 1994.
Estreia:
7, 8, 10 e 11 Dezembro 2025
Pequeno Auditório – Centro Cultural de Belém
A sessão de 10 dezembro será filmada pela RTP2 e tem audiodescrição para pessoas cegas e com baixa visão.
Próximas apresentações:
Teatro Micaelense, Ponta Delgada 21 Fevereiro
Teatro Gil Vicente, Barcelos 21 março
Teatro de Vila Real. 26 setembro
Cineteatro Louletano, Loulé 9 outubro
Theatro Circo, Braga 13 novembro
Ficha Artística
Direção artística Victor Hugo Pontes
Cenografia F. Ribeiro
Desenho de luz Wilma Moutinho
Figurinos Cristina Cunha
Assistência de direção Cátia Esteves
Intérpretes Angelina Mateus, Beatriz Mira, Carlos Nery, Cristina Gonçalves, Dinis Duarte, Du Nothin (Duarte Appleton), João Silvestre, Kimberley Ribeiro, Michel e Paula Bárcia
Consultoria artística Madalena Alfaia
Consultoria musical Hélder Gonçalves
Vídeo Miguel C. Tavares
Confecção de Figurinos Emilia Pontes e Domingos de Freitas
Figuração Alberto Alfaia-Machado, Carlos Vaza, Clarisse Amado, Matilde Manuel, Mila Todrashova, Noga Saar.
Estagiárias Catarina Gonçalves (Mestrado ESD), Joana Belchior e Mariana V. Pedreiro (Licenciatura ESTC)
Companhia Maior
Direção artística Paula Varanda
Coordenação executiva Sofia Gomes
Comunicação e imprensa Raquel Ermida
Vídeo e fotografia João Cardoso Ribeiro
A Companhia Maior é uma associação cultural apoiada anualmente pela CML, ao abrigo do RAAML.
Nome Próprio
Produção executiva Andreia Fraga
Assistência de produção Nuna Reis
A Nome Próprio é uma estrutura residente no Teatro Campo Alegre, no âmbito do programa Teatro em Campo Aberto, e tem o apoio da República Portuguesa – Ministério da Cultura/DGArtes.
Coprodução Companhia Maior, Nome Próprio, Centro Cultural de Belém, RTP2, Cineteatro Louletano, Theatro Circo, Theatro Gil Vicente
Apoio à residência Comuna – Teatro de Pesquisa, CML – Polo Cultural Gaivotas
Fotografias © Bruno Simão
Maria Emília Castanheira escreve sobre a nova criação da Companhia Maior
A Esta Hora na Infância Neva, de Victor Hugo Pontes
Centro Cultural de Belém, 8 de dezembro 2025
“A esta hora
na infância neva,
e alguém me leva
pela mão.
Quem me trouxe de tão
longe senta-se agora
à minha cabeceira
pegando-me na mão.
Senhor, que ao menos
a infância permaneça,
o espírito da neve
desfolhando-se no chão!
O médico disse que
as cicatrizes
do coração
permanecem.”
Começo por trazer o poema completo de Manuel António Pina e não apenas os dois primeiros versos que dão o nome ao Bailado que Victor Hugo Pontes idealizou para a Companhia Maior. Muito me toca este poema ínsito no livro de Pina “Cuidados Intensivos” (1994), que por sua vez é parte de TODAS AS PALAVRAS, poesia reunida, publicada pela editora Assírio & Alvim, em Abril de 2012.
Sempre a poesia que alimenta o tempo e que sobrevive a tudo. É ela mesmo que encontro neste espectáculo. O poema que evoca lei-o como uma oração “Senhor, que ao menos/a infância permaneça, / o espírito da neve/ desfolhando-se no chão!”
E é essa paleta de cores da infância que vejo irromper nos colegas da Companhia Maior. Brincam, divertem-se, jogam, saltam e dançam. Há uma bola de basquetebol no início que assume protagonismo, primeiro nas mãos de Carlos Nery no seu lento atravessar do palco em direcção ao cesto, mas que não a lança. É quando o jovem bailarino (Dinis Duarte) em movimento de desenho rápido lha apanha e encesta, uma e outra vez. Mas Nery não se dá por vencido, interage e cria uma contracena surpreendente com o jovem. Não bastasse a sua figura corpulenta e o movimento que imprime.
Este é um espectáculo inteligente. Vítor Hugo Pontes tem uma ideia, desenvolve-a, leva-a até ao fim, num equilíbrio entre a leveza e a densidade. De uma forma orgânica, opera todo o espectáculo dentro da ideia. Uma corrente dramatúrgica, que se vai revelando, com graça, delicadeza, ironia e ternura pelas vastas memórias dos seus intérpretes. Propôs, por exemplo, que eles trouxessem música para os ensaios, canções do tempo enquanto jovens. E a música é fundamental. O músico e cantor Du Nothin (Duarte Appleton) percorre todo o palco e como que conduz o espectáculo. Formidável, toca guitarra eléctrica e canta, admiravelmente. Eis que oiço, entre outras, “Olhos castanhos”, canção de Francisco José (1924-1988), momento tão feliz. Ao mesmo tempo passam num vídeo, ao fundo palco, os rostos expressivos de todos os intérpretes da peça, os “maiores” e os mais novos, e fixamos a cor dos seus olhos.
Há colchões azuis no espaço cénico (F. Ribeiro), que vamos percebendo ser um ginásio, já antes o cesto de basquetebol apontava para tal. Num banco corrido, há uma paleta de cores: são os “maiores” vestidos de crianças que assistem ao virtuosismo dos dois jovens bailarinos exímios (Beatriz Mira e Dinis Duarte), num dos belos duetos que acontecem. Vemos também uma “menina” fora do grupo, de pé, junto ao poste do cesto de basquete, parece amuada mas interessada.
Umas vezes aos pares outras num colectivo, todos dançam com graça e leveza. E quando alguns se destacam individualmente, há quem ouse a espargata, a Kimberley tem o seu momento luminoso de bailarina; dou comigo, então, à espera do momento do Michel… Mas Michel não sapateia – nova singularidade de Vitor Hugo Pontes – agora Michel, na sua língua de origem, à boca de cena, diz o célebre poema “Monsieur, le Président”, texto original da canção “Le Déserteur”, de Boris Vian (1953). Oportuno eco sobre a inutilidade e o horror da guerra!
Naquele ginásio surge a brincadeira, nos saltos para os colchões de ginástica. De repente há um que faz de morto, e ficamos na suspensão, público e todos no palco à sua volta, até que ele desmancha e ri, riem todos. Quem não se lembra de fingir-se de morto em criança?
E é também com a alegria de brincar, com riso e gargalhadas, que os mais velhos, à vez, vão abandonando a cena pela porta por onde os vimos entrar. Uma fórmula feliz: Rir, rir, vendo a inevitabilidade do tempo que passa…
Parecia o final, mas não era. O espaço é agora invadido por crianças, que saltam, jogam, brincam. E, se dúvidas houvesse, o figurino de cada uma é réplica do João, do Michel, da Angelina, da Cristina, da Kim e da Paula. O ginásio é agora todo deles, um até sobe num ápice o espaldar, sendo eles mesmos, imagem de fusão da memória com a sucessão do tempo. Ciclo da vida tão real e a que não podemos fugir.
Se já estou emocionada, a comoção é também estética, ampliada com uma ária de Callas. Brutal, a sua voz que ali, inesperadamente, irrompe. Ouvi-la até ao fim, até que a luz se dilua. É ainda como se voltássemos ao final do poema de Manuel António de Pina, “O médico disse que as cicatrizes do coração permanecem”.
Já só voltamos a ver os “maiores” em palco numa alegria imensa, total, não encenada, a agradecer os muitos aplausos do público.
A peça voltará aos palcos na digressão em 2026, e também em gravação na RTP.
A Alegria estará de volta, por onde passará ainda a cor dos olhos deles, castanhos leais, azuis ciúme, verdes traição, para tantos, afinal, todos “de encantos tamanhos”, como diz a canção.
Maria Emília Castanheira
Actriz, cronista, integra o elenco da Companhia Maior
(escreve de acordo com a antiga ortografia)

