Natureza Fantasma
Textos
Fantasma
Texto de Delfim Sardo, administrador do CCB, e incluído na Folha de Sala
A nossa relação com a memória é sempre desenhada a partir de espectros, de sombras que assolam o presente de forma mais ou menos insidiosa.
Começando de novo:
A nossa relação connosco é produzida a partir de espectros que sobem, como uma fina humidade, pelo nosso corpo a partir do chão, de um chão qualquer que, também ele, nos chama como uma memória.
Outra vez, ainda:
A nossa relação com o nosso corpo assenta, pesada, sobre os nossos pés por onde descem, em direção ao solo, espectros de todos os gestos que já fizemos ou que nos afetaram.
A relação com a memória é a matéria do trabalho que Marco Martins realizou com a Companhia Maior e que marca um final de ciclo na relação com o CCB, após 10 produções ao longo de mais de uma década. Realizada durante o período da pandemia, a obra fílmica consiste numa instalação concebida com a colaboração da artista plástica Fernanda Fragateiro e do escritor Gonçalo M. Tavares, uma situação imersiva na qual o espectador é convidado a entrar e deambular. A deambulação é parte integrante da escolha de Marco Martins, na medida em que a opção por um espaço que, na sua utilização quotidiana, é um depósito, ou um armazém, implica um determinado tom, uma certa vibração: por um lado, é um lugar sem história, pelo menos sem H maiúsculo, um recetáculo de coisas, arrumadas, por vezes catalogadas; por outro lado, um depósito é um lugar de memórias para todos os que, com aqueles objetos, num qualquer tempo se cruzaram: a cadeira daquele lugar, aquele adereço, o mobiliário desenhado por Daciano da Costa para aquela sala. Ora é esta ambiência que foi escolhida para a apresentação do cinema expandido de Marco Martins com a Companhia Maior. Mas a escolha pelo formato da instalação implica, sobretudo, que as obras de arte e o espectador, ao contrário do que acontece em qualquer espetáculo, partilham o mesmo espaço (e não estão separados entre «espaço de ver» e «espaço de representar») e solicitam ao espectador que se desloque, que deambule, podendo voltar atrás, inverter o tempo da narrativa para ver de novo, ou decidir não ver e passar adiante.
Para compreendermos rapidamente do que estamos a falar, numa descrição simples, a instalação é composta por um conjunto de filmes projetados, por uma instalação escultórica de colunas, concebida por Fernanda Fragateiro, como árvores feitas com andaimes, que suportam sistemas que difundem vozes e outros sons, objetos, memorabilia e imagens foto-gráficas. E textos, de Gonçalo M. Tavares, que fazem falar as imagens, e nelas nos mergulham. Estas situações estão colocadas ao longo de um percurso cujo ritmo de fruição só é ditado pela vontade de quem vê. Não é, portanto, um espetáculo, ou seja, uma situação com uma determinada duração, mas a criação de simultaneidades. Há filmes em que gestos, palavras, lugares e sons contribuem para, no seu conjunto, configurar um acontecimento, sons e objetos que se sucedem num mesmo espaço e tempo, mas que nunca, por ninguém, são vistos (ou ouvidos, ou fruídos, em sentido geral) ao mesmo tempo. É, portanto, uma simultaneidade em permanentes e múltiplos diferidos.
Nesse sentido, a instalação que a Companhia Maior nos traz é uma poderosa materialização da memória e da forma como esta opera: em repetições, recorrências e contradições, visível sob múltiplos pontos de vista e sempre traduzida, seja por palavras dos seus protagonistas, seja por palavras de outros, ou pelas traições da nossa capacidade de rememoração. Traduttore, traditore, é como a memória funciona, sempre a traduzir, por palavras e por atos, por repetições de gestos e estórias, os mesmos momentos, com os mesmos pais, as mesmas mães, os mesmos tiques e esgares, as mesmas partidas e as mesmas faltas, as mesmas imagens, por vezes poderosas como coisas físicas, que podem mesmo doer no corpo, esse desgraçado sem outro destino senão fingir que é, também ele, espírito.
E, por isso, a natureza da memória é sempre fantasmática.
Esta condição fantasmática é, portanto, também física. Algumas pessoas, em resultado da amputação de um membro, sentem (literalmente) sensações, comichões, dores, por vezes de forma insuportável ou excruciante no lugar onde o membro deveria estar – e não está. Esta condição do membro-fantasma é uma poderosa metáfora para podermos pensar a memória como o nosso permanente membro-fantasma, ou, se alguma natureza tivermos, ser ela também natureza-fantasma: como se cura a dor do que já não existe, mas está lá, sob a condição espectral? Sobre os indivíduos, mas também sobre as comunidades: imaginemos as situações traumáticas inerentes à herança colonial, à escravatura, ou à extrema dominação que continuam a produzir efeitos «fantasma», porque agem a partir de situações que já não existem. Como poderão ser tratados se as situações que lhes estão na origem já não existem faticamente e, portanto, não podem ser corrigidas porque não se pode corrigir o passado? A terapia social para o fantasma colonial não se resolve acabando com o colonialismo porque, em sentido próprio, este já não existe, mas a dor persiste.
A dor persiste, como também a esperança da sua redenção, auspiciosa ou violenta. Ou só insidiosa. Em todos, como em cada um de nós.
Resta-nos agradecer à Companhia Maior o facto de se ter querido reinventar uma vez mais, a Marco Martins, Fernanda Fragateiro e Gonçalo M. Tavares terem imaginado o fantasma e a todos aqueles que fizeram com que este projeto tenha, em tempos em que mais um (ou vários) espectro(s) assola(m) a Europa, sido possível.