Força

Textos

Que é que eles pensam e não dizem?

Texto de Paula Varanda, e incluído na Folha de Sala

Perante um manifesto claro do sentido de responsabilidade e desejo pelo bem estar da família, que uma pessoa mais velha carrega; perante a consciência clara de um presente conflituoso, no país e no mundo, que tem que se enfrentar ano após ano; perante a constatação de que as dúvidas crescem com a vida e que é assim que cresce a sabedoria, Filipa Francisco propôs às mulheres e homens da Companhia Maior trabalharem sobre a força como palavra chave para um espectáculo construído em conjunto.

Prosseguindo um processo criativo de procura e experimentação contínua dos efeitos desse estímulo – um método que a coreógrafa desenvolve há muito e que não é raro na dança contemporânea – todos enfrentaram a fragilidade da indefinição e das incertezas, que tem dias que enfraquecem e desmotivam; assim chegaram a uma composição coerente e original que é esta nova obra da Companhia Maior.
São os músicos que anunciam o princípio de uma jornada decidida e de fôlego, onde os uns e os outros se cruzam no caminho e encontram o que os une, definindo uma linha de força invisível. Ela é carregada do simbolismo da marcha em uníssono e de braços entrelaçados, que não deixa ficar ninguém para trás e reclama visibilidade para os precários e os fragilizados, silenciados ou esquecidos.
Neste colectivo emerge, com subtileza, uma crítica firme à sociedade de consumo e é legível a tormenta real de quem nela não detenha poder financeiro. Contrapõem-se, então, valores como a força das emoções e dos afectos e, através de muitas perguntas, as inquietações profundas e as posições que se tomam na vida afirmam-se. Em suma, os que agem, com atitude, ganham. E os que assistem só não perdem o conforto; até ver, porque essa segurança também é efémera.
Não é por acaso que aparece nesta peça uma citação da célebre Mesa Verde de Kurt Joos (1932). A Filipa tinha vontade de aproveitar a rica experiência de vida dos intérpretes da companhia para recuperar memórias de dança; e, tendo uma das bailarinas efectivamente dançado essa coreografia no passado e, havendo na atmosfera do grupo uma genuína preocupação com a guerra e os refugiados, os excertos da secção “Dança da Morte”, da peça de Joos, fazem todo o sentido. O seu diálogo com os demais intérpretes e com os esboços de outras danças também é produtivo: mostra que há, apesar de tudo, possibilidades de resistência e alternativas de amor e de alegria.
A dado momento – especificamente com o toque da massagem – levantam-se questões sobre a proximidade e a privacidade: porque abandonamos a comunicação pelo toque após a juventude? Tocar é bom ou é invasivo? Foi involuntariamente que apareceu nesta peça o
que eu reconheci como uma imagem do não menos famoso Kontaktoff de Pina Bausch (1978) – aquela cena de uma mulher que se submete às mãos de muitos homens – mas que agora, em Força, se concretiza com um homem acarinhado por muitos companheiros. Esta associação, de um olhar exterior, é contudo apropriada; não só as interrogações acima são, mais uma vez, pertinentes nas sociedades modernas – tanto mais quando a idade avança e o corpo se resguarda ou esconde – como em vários momentos da sua carreira Filipa Francisco tem prestado homenagem a Bausch. Acresce que lembrar os ausentes também contribui para a nossa força interior e, no espectáculo, essa componente exprime-se, pela palavra ou pelo gesto.
Filipa Francisco trabalha com as pessoas e as suas características individuais ou de comunidade com curiosidade e paixão. Ela é também uma artista interventiva, atenta aos direitos humanos, como vimos nas suas representações da violência doméstica (Nu Meio) das mulheres da República (Para Onde Vamos?) e da exclusão social de reclusos (Rexistir). Mais tarde, nas obras com as jovens da Cova da Moura (Íman) e com os ranchos folclóricos (A Viagem), ficou evidente o reconhecimento da preciosidade da diferença cultural. Nestas exigentes aventuras a coreógrafa tem sabido harmonizar sátira e beleza e transmitir o valor da arte para a experiência e participação na vida.
Na Companhia Maior a artista encontrou exemplos surpreendentes e inspiradores da força de vontade que mostram, também aos mais novos, como o empenho, a aceitação e a cumplicidade nos levam longe. Nesta peça a coreógrafa elogia a força latente de corpos que julgamos como frágeis e dá voz a pessoas que querem falar do que está a acontecer ao mundo. Dentro destas pessoas residem histórias individuais fortes que, não sendo na maioria reveladas, vibram nos corpos que actuam com movimentos, com voz, com adereços e instrumentos.
Também faz parte desta Força uma orquestra. António Pedro, colaborador cúmplice de longa data, desafiou alguns elementos da companhia a resolverem artisticamente a sua revolta. Essa parte do grupo construiu a dimensão sonora do manifesto e tem em mãos, como diz o compositor, um exercício de democracia: fazem juntos e assumem a liderança à vez, conforme é preciso e consoante as competências de cada um.