Iluminações

Textos

Atravessar o Espelho

Texto de Jacinto Lucas Pires, e incluído na Folha de Sala

A Companhia Maior entra agora na sua fase adolescente.

Depois de A Bela Adormecida, um espetáculo de teatro encenado por Tiago Rodrigues, e de Maior, uma peça de dança com coreografia de Clara Andermatt, e no seguimento de várias oficinas com diferentes criadores e apresentações em diversos teatros do país, o grupo começa a olhar para o seu próprio corpo com novas perguntas e outros quereres.

Quanto a Iluminações, o projeto com direção de Mónica Calle, confesso que estou às escuras. Mas, pelo que conheço dos “adolescentes maiores” desta Companhia, será mais um salto em direção ao espanto. Cada vez mais seguros das suas capacidades enquanto intérpretes e criadores, e juntando naturalmente à sua arte a força e o desassombro da sua maioridade, estes atores provocam-nos um olhar sobre a nossa Cidade muito diferente daquele que nos querem impingir os anúncios de sabonetes ou de primeiro-ministros.

O espelho que criámos para nós próprios é um espelho de feira, distorcido, grotesco, plástico, falso, onde não há velhos ou só velhos-que-até-parecem-novos. Uma sociedade que, com a desculpa do défice ou com outra qualquer, passa a olhar para as artes e para o pensamento como um luxo dispensável ou um lixo dispendioso é uma sociedade cega em relação a si própria. Sem cultura, deixamos de nos confrontar com o nosso corpo coletivo, no que este tem de antiguidade e possibilidade, de sonhos e medos, de amor e fantasma.

A Companhia Maior, com todo o seu despojamento, em toda a sua “pobreza”, ajuda-nos a atravessar esse espelho mediático no sentido de um retrato mais próximo de nós. Não, um velho país não está condenado a ser um país velho. Sejamos mais futuros, mais audazes, mais verdadeiros, mais vivos, Maiores.